Codinome Alegria/ Nas entrelinhas da moda

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De uns tempos para cá, a ideia de democratização está sendo bastante discutida na moda. E levando em conta que esse meio ainda é tão exclusivo em alguns aspectos, reconhecer que existe uma falha social e que há malefícios em suas ideologias, já é um grande passo dado.

Quebrar padrões, levar a sociedade a pensar um pouco e perceber o seu próprio tabu interior, nos mostra que a moda pode ser mais do que glamour ou tendências, moda pode ser arte, pode ser ativismo, pode ser uma maneira de mostrar outras opções, de mostrar que o lado avesso do que a sociedade ou um pequeno grupo diz ser certo, também é maravilhoso em todas as suas formas.

Essa é a moda para todos. Linda em sua teoria, mas que deixa dúvidas em sua prática. E aquele que tem um bom olho e consegue ler nas entrelinhas, já deve ter percebido o quanto ainda estamos longe de realmente chegarmos ao ponto de todos se sentirem representados.

Um dia me foi proposto esse conceito, logo pensei em escolher uma de minhas raízes e representa-las. Minhas raízes vêm de Minas, vem da Bahia, vem de uma tribo indígena que infelizmente sua história se perdeu ao passar das gerações e também vem da África, cuja história nos foi arrancada sem ter uma chance de nos conquistar.

Quando fui procurar por modelos negros, os que me foram apresentados, eram de estereótipos impostos para um “negro bonito”. A famosa mulata. O moreno lindo e sensual. Não que eles não mereçam o devido respeito e reconhecimento, afinal, esse grupo, agora conhecido como negro exportação, também sabe o que é sofrer micro agressões todos os dias.

Mas, não posso deixar de pensar nos meus irmãos negros de pele escura. Onde eles estão? Eu procurei e não os encontrei.

Andei por lugares como shoppings, lojas, praças, corredores da universidade, restaurantes e outros ambientes de lazer e reparei que eles não estavam lá. A mesma coisa aconteceu com os índios que só são lembrados e vistos (às vezes) nos 19 de abril.

Repito a minha pergunta, onde eles estão? Eu quero uma resposta!

Foi então, que me deparando com o prazo final que tinham me dado, se aproximando sem respeitar o meu desespero, me vi na alternativa de ampliar os meus horizontes.

Já reparou em quantas vozes não ouvidas perambulam por aí? Alguns minutos sentado na escadaria da igreja matriz ou parado em algum canto do terminal, você verá centenas delas.

Essas pessoas não são representadas na mídia. Essas pessoas não tem voz no governo. Pessoas que sofrem e sorri num mundo muito distante daquele que a “moda glamour” cria.

Um mundo que não foi feito para minha avó, nem para minha mãe. Nem para minhas amigas. Nem para mim. Mas o engraçado é que tentamos fazer parte dele, como se não houvesse outra alternativa.

Enfim, eu encontrei uma modelo. Seu codinome é Alegria, 50 anos, vítima de câncer de mama. Uma mulher que ama a sua família e que ama a vida de uma maneira que faz você também querer amar a vida.

Minha modelo tem uma história. E eu decidi dar uma voz a ela, mesmo que de sua boca não saiu uma palavra, cada passo na passarela, mostrou que a beleza vai além do que nossos olhos conseguem enxergar. Mas ela é só uma entre tantos.

Aqueles corpos equilibrados em cima de um salto ou escondidos atrás de uma pose de machão, postos um do lado do outro, na pressão de serem selecionados, tem uma história. Eles não são ocos de espirito. Não são desprovidos de alma. Não são seres inanimados para serem tratados sem humanidade.

E por mais calados que aquela fila de modelos, disponibilizados para a seleção, estavam, todos ali, também tem uma história.

Eu nasci em 1995, o ano que a internet chegou ao Brasil. A minha geração e as gerações que vieram depois de mim, são gerações dotadas de infinitas fontes de conhecimento. Todos os dias aprendemos uma coisa nova. E a velocidade com que as informações nos alcança, chega a ser assustadora. Mais assustador que isso é imaginar que num futuro que já bate a porta, tudo isso aumentará.

Sei que não podemos julgar o passado com índoles do presente, mas me vejo obrigada a questionar o porquê do presente ainda estar reproduzindo certas atitudes do passado.

Por que a minha geração globalizada, ainda bota tantas barreiras em lugares onde se é óbvio que não deveriam existir? Como é possível pessoas com acesso a informações não se sentirem desconfortáveis em passar pra frente algumas ideias cheias de preconceito?

A moda é maravilhosa! Mas, se observamos bem, vamos ver grandes falhas. E até podemos culpar o tempo mínimo, que as vezes temos, para executar tudo, e culpar o governo, e culpar essa sociedade opressora, culpar Luís XIV por ter impresso da moda uma imagem de coisa fútil. Mas não podemos descartar a nossa culpa nisso tudo.

“Ela é gorda, não fica bem de top. Já imaginou o top, a saia e as gorduras caindo do lado?”. “Para uma negra, ela é linda! Super exótica!”. “Pra quê dar comida pra modelo? Modelo que é modelo, já é acostumado a passar fome!” – Essas são falas de pessoas com acesso a informações e que são ensinadas e incentivadas a pensarem de forma atualizada.

E não, eu não sou perfeita! Tenho que me desconstruir todos os dias. Tenho que me vigiar a todo momento para não oprimir o meu próximo e também para não oprimir a mim mesma por ser mulher, por ser negra, por me encaixar no grupo das “mulatas” e ter claros benefícios se comparado com as negras de pele mais escura que a minha.

Enfim, concluindo e me auto parafraseando: “Quebrar padrões, levar a sociedade a pensar um pouco e perceber o seu próprio tabu interior, nos mostra que a moda pode arte, pode ser ativismo, pode ser uma maneira de mostrar outras opções. De mostrar que o lado avesso do que a sociedade ou um pequeno grupo diz ser certo, também é maravilhoso em todas as suas formas. Entretanto a moda ainda é mais glamour e tendências”

 

Instagram: @marianavicentte / Facebook: MaVi Vicente

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